ANÁLISE POLÍTICA: TRÂNSITO MATA MILHARES DE BRASILEIROS, MAS PERDE ESPAÇO POLÍTICO APÓS AS ELEIÇÕES

Não eleição de parlamentares ligados à segurança viária e à formação de condutores preocupa setor em meio a mudanças nas regras da CNH e ao aumento das mortes nas estradas brasileiras

Enquanto o Brasil registra números preocupantes de mortes e acidentes de trânsito, os resultados das eleições de 2026 revelam outro cenário que merece atenção: a perda de representantes políticos com atuação reconhecida na defesa da segurança viária, da educação para o trânsito e da formação de condutores. A nova composição do Congresso Nacional e das assembleias legislativas, a partir de 2027, pode reduzir a interlocução de um setor que enfrenta mudanças profundas em sua estrutura e regulamentação.

Segundo o Mapa da Segurança Pública de 2025, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou 26.138 mortes no trânsito em 2024, crescimento de 8,94% em relação ao ano anterior. Isso representa uma média de 71 vítimas fatais por dia.

Nas rodovias federais, os números também preocupam. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) apontam que os sinistros aumentaram 8,2% em 2024, enquanto as mortes cresceram 9,6%, chegando a 6.160 vítimas fatais. Em 2025, houve redução para 6.043 mortes, número que, apesar da queda, ainda evidencia a dimensão do problema.

Os indicadores reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção de acidentes, à fiscalização e à educação para o trânsito. Entretanto, justamente quando o país enfrenta o desafio de reduzir essas estatísticas, nomes historicamente ligados à pauta deixam de ocupar espaços no Legislativo.

Perda de interlocutores

Entre os resultados mais significativos está a derrota do deputado federal Hugo Leal (PSD-RJ), coordenador da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Trânsito Seguro e autor da legislação que deu origem à Lei Seca, além do senador Fabiano Contarato (PT/ES), cuja atuação parlamentar também esteve associada à defesa da segurança viária.

As derrotas de ambos foram destacadas pelo portal Estradas.com.br, que abordou a dificuldade de transformar a defesa de um trânsito mais seguro em força eleitoral, apesar dos impactos sociais e econômicos dos acidentes.

A formação de condutores, atividade diretamente relacionada à preparação dos futuros motoristas, também enfrenta o desafio de manter interlocutores políticos em um período de mudanças nas regras para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Em Minas Gerais, o presidente do Sindicato dos Centros de Formação de Condutores de Minas Gerais (Sindicfc-MG), Alessandro Dias, disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, mas não foi eleito. A candidatura representava uma tentativa de ampliar a presença do setor nos debates legislativos nacionais.

Minas Gerais também perde um defensor da formação de condutores

Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a não reeleição do deputado estadual Leonídio Bouças (PSDB) representa uma perda significativa para o setor.

Com uma trajetória de seis mandatos na Assembleia, Leonídio esteve envolvido em diversas discussões relacionadas ao trânsito, incluindo a defesa dos CFCs diante das mudanças promovidas pelo Governo Federal, sendo responsável pela criação da Frente Parlamentar de Apoio aos Centros de Formação de Condutores de Veículos Automotores e às Clínicas Médicas e Psicológicas Credenciadas pelo Detran-MG.

Ao avaliar sua trajetória e a importância da atividade para a sociedade, Leonídio conversou com nossa reportagem. “Sempre procurei ajudar o segmento das autoescolas, seja fazendo interface com o Detran-MG, seja me esforçando para melhorar o trabalho de todos os envolvidos com tema do trânsito. Eu realmente abracei a causa, pois é um setor muito maltratado, principalmente depois de todas as mudanças advindas do Governo Federal. Trabalhei muito para minimizar os impactos.”

A saída do parlamentar ocorre em um momento de incertezas para as empresas do setor. Questionado sobre os riscos da redução da representação política dedicada ao tema, Leonídio avalia que é um futuro de incertezas o país perder espaço político para essa pauta justamente neste momento. “Não sei como será o mandato de quem se elegeu, diante de tantas mudanças. Os profissionais do setor terão que buscar outros políticos que encampem o assunto e entendam a importância deste tema”.

Mudanças na CNH ampliam necessidade de representação política

A perda de espaço político ocorre justamente em um dos momentos mais delicados para as autoescolas. As mudanças implementadas pelo Governo Federal por meio do programa CNH do Brasil, conduzidas pelo então ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), modificaram as regras para obtenção da CNH e atingiram diretamente o funcionamento das empresas do setor.

Enquanto nome importantes que defendem a formação de condutores não conseguiram se eleger ou renovar seus mandatos, o principal articulador das mudanças na CNH permanecerá no Congresso Nacional.

O ex-ministro Renan Filho foi derrotado na disputa pelo Governo de Alagoas, mas mantém o mandato de senador conquistado em 2022, com vigência até 2031, podendo dar continuidade à sua atuação política, o que amplia a preocupação das entidades quanto ao equilíbrio do debate político sobre a formação de condutores.

Embora a derrota eleitoral não signifique necessariamente a interrupção das discussões sobre segurança viária, a renovação parlamentar exigirá das entidades representativas a construção de novas articulações para garantir que os impactos das mudanças na CNH continuem sendo discutidos no Congresso Nacional.

Parlamentares ligados ao trânsito ficam fora da próxima legislatura

Além dos nomes já mencionados, outros parlamentares com atuação em pautas relacionadas ao trânsito, à mobilidade e à formação de condutores também não conquistaram as vagas que disputaram nas eleições de 2026. São eles: Fausto Pinato (União-SP), Coronel Meira (PL-PE), Laura Carneiro (PSD-RJ), Jorge Goetten (Republicanos-SC), Zé Neto (PT-BA), Duarte Jr. (Avante-MA) e Abou Hani (Podemos-SP).

Também integram o levantamento parlamentares que disputaram vagas no Senado, como Erika Kokay (PT-DF) e Eduardo Velloso (Solidariedade-AC).

Entre os candidatos que não conseguiram uma cadeira na Câmara dos Deputados está ainda Julyver Modesto (PP-SP), especialista em legislação de trânsito e professor, que tem atuação reconhecida na área de educação e segurança viária.

A presença desses nomes em diferentes partidos evidencia que as discussões sobre trânsito e formação de condutores ultrapassam divisões ideológicas.

Os resultados das urnas não determinam, por si só, o futuro da segurança viária. Mas deixam uma questão para a próxima legislatura: quem assumirá o protagonismo na defesa de políticas capazes de reduzir acidentes, preservar vidas e garantir uma formação de qualidade aos futuros motoristas?

Fonte: Comunicação - Sindicfc-MG
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